Sempre que se fala em proteção ao cinema nacional contra a hegemonia de Hollywood, o exemplo citado é o da França, um dos poucos, ao lado da Índia e da Coreia do Sul, a fazer frente ao gigante americano. Convidado da 7ª Mostra de Cinema de Ouro Preto (CineOP), encerrada na terça-feira (26), o crítico francês Alain Bergala, ex-editor da prestigiada revista “Cahiers du Cinema”, lembra que, nos anos 1980, com a chegada da TV a cabo e o videocassete, a produção só não foi a nocaute devido à intervenção do Estado.

“Tanto Itália quanto França produziam 300, 400 filmes/ano, nesta época. Com as novas formas de ver filmes, as pessoas deixaram de sair de casa. Em um ano, a Itália saiu de 400 títulos para dois por ano, enquanto nós mantivemos o número”, diz Bergala, justificando a implantação de medidas protecionistas, como a subvenção do governo nos filmes, além da cota de tela.

Modelo que só foi possível por obra de Jack Lang, ministro da Cultura na França nos períodos de 1981 a 1986 e de 1988 a 1992.
“Ele salvou o cinema francês”, assevera Bergala, durante a conferência “O Cinema, o Cineclube e a Cinemateca: Possibilidades de Formação Audiovisual Dentro e Fora da Escola”, realizada para uma plateia lotada no Centro de Convenções de Ouro Preto, na tarde da última segunda-feira.

Bandeira pelo cinema

Política cinematográfica seguida pelos ministros seguintes, mesmo os de direita, como destaca o crítico. A base dessa bandeira pelo cinema nacional remete à década de 1940, quando comunistas e católicos se uniram na resistência contra a ocupação alemã.

“Essa junção mostrou que era possível trabalharem juntos, com a criação de grandes momentos de educação popular”.

Foi assim que disseminaram pelo país os cineclubes, “com o cinema se tornando a forma de expressão mais importante”. Pequenas cinematecas se responsabilizaram pela preservação e difusão dos filmes nacionais. Terra natal de Bergala, Marselha conta hoje com 20 mil títulos em película 16 milímetros.

Cinema na escola

Os novos concorrentes levaram ao fechamento de maior parte das cinematecas nos anos 1980. “Mas ficou uma herança, com projetos de cinema na escola se tornando os substitutos dos cineclubes”, destaca. Aos interessados na aplicação dessa metodologia, ele pondera que “a pedagogia não é uma lata de conserva, que não se relaciona com o exterior”, defendendo que é preciso ter vontade política. Na palestra, o crítico detalhou o modelo francês e afirmou que o Brasil está à frente de outros países na dobradinha cinema e educação.